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O que o padrão ético social significa para os programas de integridade corporativos?

O VALOR ECONÔMICO publicou hoje uma interessante e preocupante pesquisa do Instituto de Pesquisa do Risco Comportamental (IPRC). A mesma indica, por exemplo, que 46% dos brasileiros submetidos a um teste de integridade demonstraram ter tendência a sucumbir a desvios ou a não denunciar colegas que desviam bens das organizações em que atuam.

Reportagem do VALOR: 

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2020/01/06/brasileiros-tendem-a-aceitar-acoes-antieticas.ghtml

Nos últimos tempos tenho comentado e criticado o grande desafio existente na implementação e certificação de sistemas de gestão, e o quão controversa é a realidade brasileira.

As pesquisas anuais da própria ISO indicam o Brasil como um dos países de maior volume de certificados de sistemas de gestão emitidos, especialmente de Sistemas de Gestão de Qualidade (ISO 9001), porém temos grande dificuldade em perceber ganhos proporcionais de valor, qualidade, credibilidade e competitividade das nossas empresas, se comparados a diversos outros países e economias do mundo.

Fonte: https://www.iso.org/the-iso-survey.html

Em mesma direção, a reportagem de hoje do VALOR ECONÔMICO é a evidência do quão desafiadora é a implementação de programas de integridade nas nossas organizações e mais do que isso, o quão complexo é o processo de certificação destas mesmas organizações num tema em que questões comportamentais e culturais impactam diretamente em qualquer esforço ou iniciativa institucional.

Em minha opinião, o relativo fracasso na efetividade de sistemas de gestão no Brasil e sua certificação, está diretamente relacionado a um ciclo, no mínimo, desvirtuoso:

  • Organizações enxergam sistemas de gestão como custo e não como investimento;
  • Organizações enxergam a certificação destes sistemas como objetivo, e não como consequência da sua implementação bem sucedida;
  • Organismos certificadores enxergam o certificado como seu produto final, e não o referencial de credibilidade, imparcialidade e conformidade que este tem que representar;
  • Organismos certificadores enxergam no volume de certificados emitidos um sinal de sucesso e dever cumprido, e vendem este fator como evidência de sua notoriedade e importância, como se market share de selos de conformidade em uma sociedade lamentavelmente pré-disposta à lei do menor esforço (vide reportagem do VALOR) fosse sinônimo de credibilidade.

O resultado deste ciclo são implementações de sistemas e metodologias de auditoria/avaliação que priorizam de forma quase exclusiva a “letra fria” da lei, requisitos normativos, assim como documentos e registros probatórios de implementação de processos, em detrimento de evidências de transformação da cultura organizacional provocada pela persistência na qualificação, instrução, mudança de processos e de hábitos da própria força de trabalho e, em especial, do topo da companhia.

O que esperar então do “boom” dos Programas de Integridade, sistemas de gestão voltados para implementação de processos e ferramentas, que visam atuar de forma proativa e reativa frente aos riscos e evidências de corrupção ou suborno nas organizações?

Qual nível de confiança o mercado terá diante de eventuais certificações concedidas à organizações que tenham implementado seus programas de integridade, considerando o histórico de resultados práticos das atuais certificações, a relevância do impacto comportamental sobre os programas de integridade, e a lamentável tendência à tolerância ao antiético de nossa sociedade, retratada nesta reportagem do VALOR?

Acrescenta-se ainda aqui o impacto social silencioso relevante de todo este cenário. Enquanto um sistema de gestão ambiental mal implementado e ainda assim certificado, pode levar à uma gestão irresponsável e omissa na prevenção do rompimento de uma barragem, ou mesmo na prevenção dos impactos provocados diante de uma catástrofe destas proporções, situação que gera enorme dano, repercussão e comoção diante das consequências da tragédia, um selo anticorrupção ou antissuborno inefetivo será capaz de produzir uma hemorragia silenciosa em todo o esforço e esperança em construir um país mais justo, com aplicação responsável de recursos públicos e de um mercado mais competitivo e inclusivo.

Nesta condição, seria possível construir um referencial que tenha a credibilidade esperada em termos de certificação de programas de integridade?

Eu me arrisco a afirmar que sim. Os exemplos de falhas de todo este processo existem aos montes e servem justamente para aprendermos e realizarmos ajustes. Acreditar que metodologias e regras de certificação aplicáveis para sistemas de gestão de qualidade ou de meio ambiente, podem simplesmente ser transportadas para programas de integridade é um erro.

  • Integridade é um princípio e não uma boa prática. Não se implementa ou certifica escolhendo escopo, locais, ou particionando uma mesma organização entre seus locais ou sites de atuação;
  • Comportamento ético é um hábito. Não se avalia um programa de integridade de forma efetiva a partir de uma amostragem pequena e viciada, bem como, não se identifica mudança de hábito a partir de uma janela pequena no tempo;
  • Efetividade na prevenção e controle de corrupção não é atingida ou certificada devidamente, sem conhecer de forma profunda os riscos particularizados de cada negócio – seu mercado, sua história, sua estratégia, seus parceiros, seus relacionamentos;
  • A implementação e certificação de Programas de Integridade caracterizados como solução de continuidade na prevenção de corrupção e suborno, não existem sem que a gestão de riscos esteja comprovadamente conectada à políticas e práticas de governança corporativa que façam parte do cotidiano da organização, independentemente de seu tamanho.

Estes são só alguns pontos relevantes que cercam essa discussão e que, se bem enfrentados, podem produzir efeitos realmente positivos, revertendo o ciclo desvirtuoso já comentado.