A vulgarização das certificações profissionais 2.0 – O caso do mercado de Conselheiros

Ainda que seja difícil reconhecer, por se tratar de um segmento no qual atuo, a realidade que temos hoje é de um país que sofre com a disseminação da baixa qualificação de profissionais, ou da construção de grupos fechados e favorecidos por fatores não necessariamente relacionados ao próprio mérito, ou por seu real perfil para atuar em determinada atividade. Nas áreas de gestão e governança não é nada incomum observarmos isso. Diante dos desafios que se impõe, dia após dia, no nosso mercado e junto às empresas, boas práticas de gestão e de governança tornaram-se a base para o crescimento e a sustentabilidade de toda organização. Condição que justifica a busca frequente e cada vez maior por esse conhecimento. Porém, como é possível perceber em nosso mercado, uma grande procura e oferta não necessariamente significa grande qualidade e valor agregado. Em outras ocasiões, sequer significam acessibilidade e oportunidades iguais a todos os que têm condições de acessá-las. Este aumento exponencial da oferta de qualificação de profissionais nesta área (o que me parece ser também um fato para outras áreas), ou a construção de reservas de mercado, vêm sendo construídas a partir de uma grande mistura de palavras-chave, escalonamento sem critério de ofertas, e a partir do reconhecimento e/ou formação de grupos privilegiados, muito mais por seu poder aquisitivo ou bons relacionamentos, do que propriamente pelo mérito ou perfil. Nesta linha, temos desde workshops de duas horas que levam também a certificação, cursos que afirmam certificar, pois emitem um “certificado de participação” ao seu final, e certificações que incluem algumas dezenas de horas de formação e uma avaliação final, mas que possuem em seu rol de certificados, desde profissionais recém atuantes na área, como também outros de grande experiência e qualificação. Temos também entidades promovendo grupos formais destes profissionais, “desde que” façam seus próprios cursos e obtenham sua própria “certificação” derivada exclusivamente dos mesmos. E assim, teriam acesso inclusive a oportunidades profissionais e outros produtos deste grande “pacote” de ofertas, desde que possam pagar por todas elas. Neste ponto, deixo claro, porém, que nada tenho contra ampliação de portfólio e diversificação. Para quem tem certificação e atua em gestão de riscos como eu, vejo isso com absoluta naturalidade. Porém, é preciso ter critério, bom senso e ética para isso. Misturar um suposto referencial de excelência construído ao mercado (certificação), com um conjunto de entregas associadas e “casadas” ao referencial, não me parece nada adequado. A norma ABNT ISO/IEC 17065, dedicada à gestão de organismos de certificação de produtos, por exemplo, tem em um dos seus principais requisitos a GESTÃO DA IMPARCIALIDADE nos processos de certificação. Quando o objeto da certificação é Governança Corporativa, o qual carrega consigo valores e princípios intimamente relacionados a ética, diversidade, sustentabilidade, transparência, prestação de contas, ESG etc., chega a ser contraditório ignorar estes aspectos. Em meio ao uso desenfreado e pouco criterioso do termo “certificação”, tornou-se um desafio identificar com clareza o caminho a seguir aos que buscam o seu próprio reconhecimento, compatível ao conhecimento, experiência, perfil e expectativas de retorno, com isenção, imparcialidade, independência, acessibilidade e efetividade. Assim como, aos que buscam profissionais alinhados às demandas e desafios de suas organizações. O dilema do crescimento Seja qual for a certificação, é natural que na medida em que há seu crescimento no mercado (e crescimento indica aumento de certificados emitidos e reconhecimento público do selo), haja também um aumento de demanda em torno da obtenção do referencial. De um lado, o desejo em alcançar o reconhecimento, seja para “entrar no baile” ou mesmo para não ser “convidado a se retirar”. Do outro, um “doce” e quase irresistível convite a qualquer organização que forneça certificações, que passa a ter “a faca e o queijo” para surfar em meio ao crescimento de demanda (e de receita). E no meio deste cenário, aspectos que podem levar ao início do fim do referencial de excelência: Será que todos aqueles que ingressam no processo têm condições de obter a certificação? Como dizer “não” para aqueles que não reúnem as condições mínimas necessárias para ingressar no processo de certificação? Como dissociar a minha necessidade em atravessar o “break even” de formação da turma (número de participantes), e que leva a minha própria certificação, e os pré-requisitos da “certificação” para admitir novas matrículas? Até que ponto serei capaz de preservar a “elasticidade” dos critérios para admitir matrículas, diante dos meus interesses em viabilizar as turmas? Serei capaz de “blindar” a minha certificação de outros produtos que ofereço vinculados a ela, ainda que isso provoque mal-estar, descontentamento e frustração de meus potenciais clientes destes outros produtos que também ofereço? Há ainda o desprezo ao mérito e o conflito de interesses que eclodem de uma entidade não estruturada e aculturada como uma certificadora, diante da reserva de mercado que ela percebe que seu referencial alcançou. Esta passa a identificar oportunidades de criar seus próprios grupos, clubes, assim como prover outras entregas “casadas” à certificação, misturando e contaminando o interesse genuíno em construir um referencial de excelência de mercado para profissionais, com outros objetivos, entregas e interesses econômico-financeiros. O nivelamento por baixo e os seus sinais O “canto da sereia” diante do aumento da demanda (e de receita) no curto prazo para a certificação oferecida, ou reservas de mercado estabelecidas, leva a muitas empresas que afirmam ofertar uma “certificação” a sucumbirem, o que afeta diretamente os valores que deram origem ao referencial construído. O “branding” passa a ser o produto, e não o que ele significa, que mensagem ele traz e que valor agrega a todos que têm interesse no referencial. Em se tratando, por exemplo, de certificações de profissionais, este processo é ainda mais acelerado, oferecendo como consequência imediata o nivelamento por baixo, tanto das exigências para obtenção do selo, quanto da entrega percebida dos profissionais certificados junto ao mercado. Neste ponto, misturam-se tanto as “certificações” obtidas em um workshop de duas horas, quanto aquelas que promovem uma certificação ancorada em um processo de qualificação e comprovação de experiências mais estruturadas, assim como aquelas…

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Os desafios e dilemas de um conselheiro de PMEs

Atuar como conselheiro de empresas tem se tornado o caminho natural de carreira (ou da transição desta) para diversos profissionais, executivos e gestores. Se antes esse assunto parecia exclusivo de grandes empresas e corporações, especialmente para as chamadas sociedades anônimas (S.A.) – empresas de capital aberto, nos últimos anos a Governança Corporativa tem se tornado exponencialmente um tema muito mais valorizado, procurado e acessível em todos os níveis de mercado e de empresas, em especial para pequenas e médias empresas, assim como para as chamadas empresas startups. Se para as PMEs, investir em Governança Corporativa vem se tornando um caminho necessáriopara seu crescimento, sustentabilidade, e até mesmo para sua sobrevivência, para as startups, a Governança Corporativa tornou-se um sistema necessário para construir e manter um ambiente mais propício e seguro para que o investidor realize o aporte de capital. Neste caminho, depois de atingir o sucesso profissional e construir a carreira de executivo em grandes empresas, com muitas experiências, formações e resultados positivos no currículo, muitos profissionais passam a buscar novos desafios impulsionados pela percepção de que estariam aptos a aportar tamanha trajetória em empresas que ainda demandam visão mais qualificada, sistêmica, profissional, imparcial e externa à sua estrutura e cúpula decisória. Por outro lado, aos olhos destas organizações de pequeno e médio porte, este torna-se um caminho mais rápido, economicamente viável e, por consequência, bem interessante para que sua estrutura disponha de um profissional de alta qualificação e experiência, visando a busca de auxílio para tomada de decisões, melhor controle e direcionamento do negócio. Porém, será que todo executivo e gestor de grandes empresas esta automaticamente preparado para atuar como conselheiro em empresas de pequeno e médio porte? Neste momento, você deve estar pensando: “Não! Exatamente por isso que muitos destes profissionais recorrem a cursos e formações em Governança Corporativa largamente oferecidos ao mercado, diante da iminente transição de carreira.” Mas, será que é só isso? Como o conselheiro prepara o “mindset” para este universo? Contrastando com a realidade existente nas grandes corporações por onde passou, em que sua posição de liderança, além de toda a estrutura e a oferta de recursos disponíveis, oferece um ambiente mais controlado, profissionalizado, sistematizado e verticalizado para as decisões e ações, na posição de conselheiro de PMEs, em muitas ocasiões o cenário e sua posição apresentará uma realidade bem diferente: Ambiente de trabalho repleto de pessoalidades, informalidades e relações entre os acionistas, executivos e gestores que extrapolam as fronteiras da organização, ao mesmo tempo em que parecem permear (mesmo que veladamente) todas as discussões dentro destas “fronteiras”; Acionistas e fundadores tomando decisões monocráticas, e que muitas vezes conflitam, contradizem, rivalizam e “atropelam” as discussões e as próprias decisões do colegiado; Opiniões e discussões carregadas de emoção, sentimentos, nostalgia e apego à cultura, hábitos, estrutura e pessoas que construíram o negócio até aquele momento; Ausência de planejamentos estruturados, de disciplina com agendas e prazos, de processos e controles, de transparência e acessibilidade de informações e indicadores; Preconceitos e barreiras instauradas (conscientes e inconscientes) diante de qualquer agente externo que desembarque na organização, diante da percepção natural de que se trata de alguém que virá ameaçar o poder estabelecido, expor fraquezas, ameaças e “sacudir” a zona de conforto, que muitas vezes são muito mais confortáveis quando ignoradas. Condição esta, que pode ser ainda potencializada diante do nível de egocentrismo de fundadores e atuais executivos; e Rivalidades e conflitos internos instaurados há anos sem resolução; desentendimentos pessoais que invadem veladamente discussões e decisões organizacionais; herdeiros mal preparados e sem qualquer apego ao negócio; disputas entre famílias acionistas pelo maior controle e participação; acionistas e até executivos “parasitas”. Em resumo, costumo descrever o ambiente de gestão e governança predominante dentre as PMEs nacionais como algo “naturalmente caótico”. E como isso impacta no “mindset” do ex-executivo, ex-gestor de grandes corporações, que decide se aprofundar no tema Governança Corporativa e “aterrissar” toda sua experiência e qualificação para ajudar estas organizações? Impacta na medida em que esse profissional precisa estar adequadamente preparado em termos de consciência da realidade, assim como na disposição de absorver e desenvolver ferramentas pessoais e comportamentais que sejam facilitadoras (e não barreiras ainda maiores) para enfrentar todo esse cenário. Neste ponto, o egocentrismo, o orgulho e a soberba; a comunicação e o gestual demasiadamente “professoral”; o monopólio da razão e a ausência de sensibilidade; a insistência excessiva em ditar ritmos, tempos e movimentos que considera ideal para si (não necessariamente para os demais); o hábito da escuta pouco ativa e do “eu decido, e todos me seguem”; a ansiedade em alcançar resultados nos prazos esperados; a dificuldade em lidar com contratempos, mudanças constantes de planos; a intolerância e impaciência aos que parecem “saber menos” ou não compreenderem “o óbvio”; a tentativa de ignorar conflitos e disputas pessoais e familiares presentes, pois “não são problema meu”…são diversos aspectos que precisam fazer parte de autorreflexão, autoconsciência e, ato contínuo, preparo adequado e amadurecimento do profissional hiper experiente e qualificado como executivo, porém agora na posição de conselheiro. Atuar como conselheiro em PMEs vai muito além do domínio das teorias, princípios e ferramentas de Governança Corporativa, ainda que estas sejam imprescindíveis. Em se tratando da nossa conhecida cultura latino-americana, com características paternalistas e que deixam as emoções falarem mais alto em decisões e situações de debate, estas questões tornam-se ainda mais relevantes e decisivas para o sucesso. Questões muitas vezes deixadas de lado, passam a ser fatores decisivos de sucesso (ou insucesso): resiliência, resignação, paciência, humildade, comunicação afetiva, inteligência emocional, postura, empatia e etc. Em especial, é preciso trabalhar a arte do possível em meio a tantas barreiras, desafios e cultura contrária às melhores práticas de governança e gestão. Compreenda: diante de muitos dos fundadores e empreendedores que alcançaram sucesso e prosperidade, apesar do ambiente de negócios sabidamente hostil como o nosso, o seu currículo de sucesso profissional será “apenas” a chave que o fará escolher você para participar do controle, direcionamento e das principais decisões da empresa. Toda sua história, repleta de bons resultados, crescimento profissional e…

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Certificações em Gestão e a incrível história do paciente saudável, mas que vive doente

Em algum momento já refletiu sobre a analogia entre implementação e certificação de sistemas de gestão, e a nossa saúde? Isso mesmo, a saúde individual de cada um de nós! Como profissional que está imerso no universo das certificações e busca, cada vez mais, mostrar a realidade na qual vivemos e o que devemos fazer para mudá-la, procuro relacionar questões importantes a serem debatidas com situações do nosso cotidiano para que fique mais clara a necessidade de mudança. Por isso, hoje trago aqui neste artigo uma comparação entre a saúde das pessoas, uma questão médica, com as certificações em gestão. O saudável que não está saudável Vamos começar pelo ponto em que uma empresa possui vários sistemas que precisam funcionar bem e de forma equilibrada, para que tenha saúde financeira, econômica, estratégica, enfim, sustentabilidade do negócio. Então, temos a área comercial, administrativa, financeira, área patrimonial, recursos humanos e por aí vai. Para todas essas áreas, é preciso ter uma gestão eficiente em torno delas. Então, quando essa gestão funciona bem, alinhando todas essas áreas e fazendo com que cada uma trabalhe em cima das suas responsabilidades, fazendo com que as atividades aconteçam de forma eficiente, a empresa consegue atingir os seus objetivos, que estão diretamente relacionados a ter saúde financeira, ter perspectiva de perenidade, de sustentabilidade no tempo, e eventualmente até de crescimento e expansão. Então, todo o “organismo” trabalhando com as áreas alinhadas e em conjunto, consegue proporcionar a efetividade do negócio. Esse tipo de situação acontece da mesma forma com o ser humano, com o nosso corpo. Nosso organismo é repleto de sistemas. Temos o sistema sanguíneo, ósseo, nervoso, motor, digestivo e etc. Quando estão trabalhando muito bem em conjunto, equilibrados, nos proporcionam saúde, certo? Então, vamos analisar a seguinte situação: você resolve iniciar uma prática de esporte e vai fazer a matrícula em uma academia, por exemplo. Lá lhe pedem um atestado que comprove que está apto para realizar as atividades. Você vai ao seu médico de confiança e fala para ele: “Doutor, acredito que preciso fazer alguns exames para comprovar que estou bem de saúde e você emitir o atestado para eu apresentar na hora da matrícula. Tenho objetivo de competir, de ser campeão no esporte, então meus treinamentos tendem a ser bem intensos para deixar minha performance em alto nível”. O médico então responde: “Tudo bem, vamos realizar alguns exames gerais e outros mais específicos para ter certeza do seu estado de saúde. Vamos fazer exame de sangue, uma bateria de exames cardiológicos, teste de esforço, ecocardiograma e uma ressonância no cérebro para verificar se há alguma possibilidade e risco de problema futuro com a intensidade dos treinos”. Ainda impactado com a quantidade de exames mencionados, você vira para o médico e afirma: “Doutor, não precisa fazer tudo isso não. Vamos só fazer o exame de sangue. Se estiver tudo ok, você emite o atestado e me libera, ok?”. É claro que nenhum médico concordaria com uma proposta dessas! Mas então, por que estou trazendo esse contexto? Porque é exatamente esse o cenário que temos no universo da implementação e certificação da gestão nas organizações. A diferença é que no atual mercado de auditoria e certificação de conformidade de sistemas de gestão empresariais, muitas vezes o “médico” não está nem um pouco preocupado com o significado do seu diagnóstico…e o pior é que a organização certificada também não! Priorizando a superficialidade, a ausência de seriedade, e o caminho mais fácil para o objetivo de curto prazo, o cliente ávido pelo “atestado que o libera para o esporte”, e o “médico” focado em satisfazer o cliente a baixo custo para mitigar o risco de perdê-lo, contentam-se com amostras e resultados insuficientes e nem um pouco alinhados aos verdadeiros objetivos e riscos relacionados. E o que acontece? Quem sabe um aneurisma que “explode” em um paciente “saudável”, caracterizado por uma empresa certificada em gestão da qualidade há 10 anos, que perde market share e “quebra” diante da crescente e reincidente insatisfação acumulada de clientes? O que acha? “Morreu”, mas estava “saudável”, não é verdade? Imagine que você conseguiu o primeiro atestado apenas fazendo o exame de sangue, mas nos treinamentos começa a sentir uma dor de cabeça fora do normal. Não dá bola. Passa um tempo, a dor permanece e você precisa apresentar novamente o atestado à academia onde treina. Volta no médico, pede o atestado. Ele lhe questiona se quer fazer os outros exames, mas diz que não precisa, mesmo tendo dor constante. Sigamos com a superficialidade de novos exames de sangue e um novo atestado para mais alguns meses de treino. Alguns meses depois, um AVC ou algum outro problema gerado por aquela dor de cabeça constante, e que faz com que fique impossibilitado de realizar as atividades ou, até mesmo em casos mais severos, tira sua própria vida. Por muito tempo, o foco de todos os lados em termos de excelência em gestão tem sido: “Eu quero me certificar”; “Quero uma certificação urgente, pois preciso passar no cadastro do cliente A”; “Preciso da certificação, pois estou perdendo mercado para o concorrente B”. E assim, cria-se um ambiente no qual o objetivo é distorcido, a realidade mascarada, os investimentos insuficientes, e os resultados seguem sem qualquer conexão e sinergia com a estratégia e efetividade do negócio. Acompanhe a BRA Certificadora aqui no LinkedIn Você “fatiaria” seu diagnóstico de saúde? Um exemplo clássico dessa situação é imaginar uma indústria que possui dois escopos de serviço: a fabricação e assistência técnica de computadores. Ela então resolve certificar apenas o sistema de gestão da qualidade dos serviços de assistência técnica, ignorando a gestão do setor de fabricação. Ou ainda, a organização decide que somente quer certificar o programa de integridade implementado junto às rotinas e processos de pós-venda, ignorando, por exemplo, o setor de licitações públicas! Isso é basicamente o que acontece quando o paciente vai ao médico, limitando os pedidos de exames apontados pelo profissional de saúde, apenas aos que ele está disposto a testar, tendo…

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Disrupção, inovação e o ganho de valor a partir da conformidade efetiva

Ao longo dos últimos tempos venho “batendo na tecla” de que, no mundo do “compliance” ou conformidade, o qual passa pela implementação, cumprimento e certificação com base em requisitos ou diretrizes de excelência, sejam estes focados em modelos de gestão de empresas, qualificação técnica de profissionais de diversos segmentos, requisitos de projeto/fabricação de produtos ou requisitos de prestação de serviços, a criação de valor é fundamental para que o investimento em conformidade seja muito mais do que um objetivo de marketing ou de resultado de curto prazo, mas sim uma solução estratégica e de continuidade. A sensação de miopia e desconfiança em torno de referenciais de conformidade (certificações) vem crescendo ao longo dos últimos anos no Brasil de uma maneira muito significativa, provocando uma enorme perda de credibilidade. E este caminho parece não ter volta quando tratamos dos modelos tradicionais de implementação e certificação da conformidade. A Indústria do Papel Assinado Criados a partir de um propósito genuíno de reconhecer e comunicar ao mercado, o diferencial, valor e mérito, diante do investimento e esforço realizados em torno do atendimento a requisitos considerados de excelência em diversos temas, as certificações (de modelos de gestão, de pessoas, de produtos e serviços) naturalmente transformaram-se em soluções muito interessantes para um mercado progressivamente maior, mais competitivo, aberto e global. Na medida em que entidades reconhecidas mundialmente evoluíam em torno da publicação e atualização permanente de requisitos e diretrizes de excelência (como a própria ISO, ONU, OCDE e outras), foi-se tornando cada vez mais “confortável” e lógico para o mercado, delegar ou terceirizar a avaliação, com base em requisitos considerados importantes (e alguns até obrigatórios) de um fornecedor, cliente, profissional ou parceiro. Por outro, como infelizmente não deixa de ser muito comum em nosso mercado, boas iniciativas muitas vezes acabam sendo descaracterizadas e transformadas em arremedos ou caricaturas daquilo que originalmente representavam. E tudo isso ancorado na nefasta cultura do menor esforço e da busca por vantagem, mesmo que indevida. Ou seja, em torno desta realidade, uma verdadeira indústria de “papéis assinados” tomou conta do mercado, levando a projeção do “me engana que eu gosto” generalizado, acompanhado de incongruências, escândalos, tragédias e muito desperdício de recursos, tais como: O país, que está entre os 12 em volumes de certificados ISO9001 no mundo, figura sempre entre os últimos em rankings mundiais de competitividade global; Empresas certificadas em gestão ambiental sendo responsáveis por gigantescas tragédias ambientais e sociais nos últimos anos; O país que assistia perplexo ao maior escândalo de corrupção da história ocorrido em seu território, ser exposto e narrado na grande mídia sete anos atrás, já figura entre os com maior número de certificados de gestão antissuborno emitidos no mundo; Profissionais recém-formados, ou ainda em formação, já figurando como profissionais de compliance ou governança certificados, ostentando o mesmo selo de outros profissionais com mais de 25 ou 30 anos de carreira, além de alta qualificação alcançada. No Brasil, tal “metamorfose” vem ainda sendo impulsionada e garantida por um modelo e uma cultura impregnada de intervencionismo estatal ou por oligopólios de entidades que são parte dessa “indústria”, sempre focadas na manutenção deste tradicionalismo e na própria autopreservação, usufruindo ainda de um status construído numa época de baixa concorrência e muita influência política. Passou-se a ter menor importância o valor agregado que o selo oferece ao mercado e suas partes interessadas, do que o “quantas empresas você já certificou?”; “quem lhe reconhece a me certificar?”; “quem reconhece essa sua certificação?”; “este selo é reconhecido por A ou B?”. E antes que eu seja mal interpretado, considero SIM importante a participação direta do Estado controlando, gerindo e fiscalizando modelos de avaliação de certificação COMPULSÓRIOS, com foco na saúde e segurança do consumidor e da sociedade. Por outro lado, por que o Estado deve se envolver em vários outros modelos VOLUNTÁRIOS de certificação responsáveis por auferir e reconhecer produtividade, integridade, gestão de recursos, qualificação técnica de profissionais, e tantos outros não relacionados aos aspectos de saúde e segurança citados? Não seria muito melhor deixar que a própria criação e atualização destes modelos e processos de avaliação (e selos de certificação) fossem estimulados pela livre competição, reconhecimento e capacidade de agregar valor, entre as entidades dispostas a competir neste mercado, deixando que este mesmo mercado venha a medir, avaliar e escolher o que buscar ou o que reconhecer? Acompanhe a BRA Certificadora aqui no LinkedIn A virada de chave a partir da Inovação e Disrupção Depois de quase 15 anos vivendo diariamente o modelo tradicional de avaliações de conformidade e certificação, resolvi pessoalmente me dedicar a um negócio que fosse capaz de trazer à tona estes questionamentos, não somente através de críticas, mas especialmente por meio de soluções e propostas concretas, que pudessem quebrar este paradigma do “selo pelo selo”. O foco é muito simples: não queria um cliente buscando uma certificação com aquele sentimento do “preciso daquele papel”, mas sim com a convicção do “preciso de alguém confiável e competente pra me mostrar o caminho e me dizer se estou na direção correta”. E “direção correta” dita por alguém “confiável e competente” pode ser representada pela equação: (efetividade + valor agregado) x (transparência + objetividade + credibilidade + rastreabilidade) Neste momento, você pode estar pensando: “fácil falar”. E você tem razão! A base dessa transformação envolve (e tem envolvido) muito trabalho, muita observação, muita análise e busca incessante por modelos que ofereçam todos os elementos destacados pela equação acima. O que posso afirmar até aqui, e apesar das dificuldades de um mercado habituado e até viciado na tradicionalidade pré-existente e comprovadamente pouco efetiva em muitos casos, é que pouco a pouco, em conjunto com parceiros de referência do mercado e com este mesmo espírito transformador, aproveitando minha experiência pregressa, mas também com muito interesse em inovar e transformar este ambiente, tenho tido a oportunidade de atuar e participar diretamente na construção de modelos altamente disruptivos de avaliação de conformidade e certificação, como a primeira certificação de conselheiros consultivos do Brasil (ConCertif®), a Certificação de Sistemas de Gestão Anticorrupção…

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A gestão de riscos como método para aumentar valor e produtividade das organizações

Qual o propósito da existência de metodologias e ferramentas de gestão de risco? Se essa pergunta fosse feita a um grupo aleatório de pessoas, de diversas formações, muito provavelmente a imensa maioria responderia algo como: “o foco da gestão de riscos é prever e tratar grandes ameaças, problemas, perdas”. Este é o primeiro engano que muitos cometem: a associação da gestão de riscos apenas aos aspectos negativos que cercam determinada atividade, plano ou projeto. De forma muito comum, um aspecto estrutural deste trabalho é totalmente ignorado: a adequada qualificação do que é um RISCO. Riscos correspondem tanto a eventos negativos (ameaças e fraquezas), quanto aos positivos (oportunidades e forças), que permeiam a busca pelo alcance de um determinado objetivo, o qual por sua vez é a razão principal de um empreendimento em planejamento, ou já em curso. O segundo engano está em associar a gestão de riscos a um processo exclusivo de prevenção dos aspectos negativos, deixando de lado ou não percebendo a utilidade destes métodos e ferramentas na busca por resultados superiores ao planejado (menor custo e/ou maior retorno), alcançados de maneira mais rápida do que o esperado, ou mesmo como ferramentas de alerta para reflexão permanente do objetivo principal (viabilidade e nível de interesse). O terceiro e importante engano se resume a uma palavra: “grande”. Muitos acreditam que métodos de gestão de riscos precisam ser complexos e detalhados, exigindo, portanto, enorme dispêndio de recursos e energia para sua implementação. E se exigem este grande dispêndio, somente podem ser aplicáveis diante de objetivos e seus retornos proporcionais ao investimento previsto. Por fim, um outro aspecto muito ignorado é a utilização da gestão de riscos como “bote salva vidas” diante de um grande naufrágio. Na prática, dentro de uma metodologia efetiva de gestão de riscos, o mapeamento e definição do comumente chamado “Plano de Continuidade dos Negócios” corresponde a um conjunto de ações, recursos e processos que seriam acionados, diante de um evento de risco catastrófico ocorrido, o qual atingiria de forma direta as principais atividades de uma organização e/ou empreendimento. O objetivo maior deste plano é, da forma mais breve possível, restabelecer as condições mínimas para retomada das atividades vitais forçosamente interrompidas. Não confunda o empreendimento com o objetivo que o motivou a empreender! O que é um empreendimento para você? A aquisição de uma nova máquina para sua indústria? O desenvolvimento de um novo produto? A aquisição de uma nova unidade fabril ou a fusão com um antigo concorrente? E se eu lhe dissesse que, considerando a máxima: “se tem objetivo relevante, o processo para alcançá-lo é um empreendimento”, a implementação de uma gestão em cibersegurança na sua organização, a implementação de um sistema de gestão da qualidade ou ainda a obtenção da aprovação cadastral em um grande cliente pode ser considerada um empreendimento? Você concordaria? Para fins de aplicação de muitas metodologias de gestão de riscos, a existência de um “empreendimento” está associada à existência de um objetivo primário que justifique sua própria existência. Observe que, para cada empreendimento citado, existe, ao menos, um objetivo primário associado! Porém, CUIDADO! Não confunda o empreendimento (o meio para atingir o objetivo), com o próprio objetivo. Neste ponto, será que seu objetivo primário seria “a aquisição de uma nova máquina” ou não seria “o aumento de produção e de receita em X%, com vistas a atender o aumento sazonal de demanda”? Ou ainda, será que seu objetivo seria a “implementação da gestão em cibersegurança” ou não seria “mitigar os riscos de sanções, diante da recém aprovada lei de proteção e privacidade de dados”? Por que identificar com clareza o objetivo é importante? A identificação do objetivo correto será determinante para uma adequada avaliação de viabilidade dos resultados almejados, bem como, para identificação dos eventos de riscos que representam barreiras (eventos negativos) ou facilitadores (eventos positivos) para o alcance dos próprios objetivos. O grande salto para agregar valor e produtividade a qualquer empreendimento a partir da gestão de riscos Como já citado, há uma percepção majoritária do mercado de que a gestão de riscos é algo estratégico e que só pode ser aplicada em grandes ações corporativas das organizações de maior porte. O superdimensionamento da complexidade dos métodos de gestão de riscos e o desconhecimento da existência de modelos e ferramentas simplificadas, aderentes, flexíveis e igualmente efetivas destes mesmos modelos, são as causas deste tipo de percepção. Em muitas situações, ignora-se completamente que mesmo micro projetos podem (e devem) ser conduzidos com base em um modelo de gestão de riscos. Vou fazer uma analogia com as decisões da nossa carreira. Se você mora em uma determinada área da cidade e pretende evoluir na sua carreira e conseguir, talvez, um emprego melhor ou uma evolução profissional, talvez precise sair de onde está, ir para outro local da cidade. O que normalmente você pensaria primeiro? Que precisará vender a casa que possui ou que precisará verificar se o local desejado oferece serviços e educação adequada aos seus filhos, por exemplo. Ou ainda, se os custos de transporte no local desejado serão menores, proporcionando melhor gestão do seu orçamento. Esse é o processo. O seu projeto, que tem como objetivo conseguir um emprego melhor, tem riscos que precisam ser avaliados para que o objetivo seja alcançado. O ponto é: quando as questões são pessoais, instintivamente nós avaliamos os riscos de forma natural e sem perceber a importância deste processo para o “conjunto da obra”. Agora, imagine a importância desse tema para o mundo corporativo, naturalmente mais complexo e dinâmico? Como avaliar e manter sob controle o atendimento a requisitos legais ou contratuais que sua empresa deve cumprir, diante de um novo contrato ou nova lei vigente, por exemplo? E ainda, como seguir nesta direção, levando-se em conta as mudanças de seu próprio mercado e estrutura da empresa? A gestão de riscos precisa ser uma solução de continuidade na criação de valor! 1- Como avaliar, com clareza, se seu objetivo primário é e mantém-se viável? 2- Qual a condição atual para que o seu…

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Contradições brasileiras: Ambiente de negócios hostil, Cultura imediatista e a Baixa Competitividade

Imagine-se em uma floresta selvagem e extremamente hostil. Poucos recursos, predadores, clima insalubre etc. Agora, vamos considerar que você não teve a opção de escolha em estar ali neste momento, porém teve vários anos para se preparar. O que você teria feito ao longo desse tempo? Não é novidade para qualquer empresário, ex-empresário e gestor, o ambiente de negócios do Brasil: ausência de políticas de Estado na área econômica e de infraestrutura (os ciclos são de acordo com os interesses do grupo político que está no poder – poder este, inclusive, extremamente centralizado); burocratização excessiva; insegurança e lentidão jurídica; escassez de mão de obra qualificada; alta carga tributária etc. Em suma, como já escutei de amigos empresários, para investir por aqui começando “do nada”, ou você é maluco, ou gosta de sofrer. No entanto, muitas pessoas investem, muitas são movidas por grandes ideias e pelo desejo de inovar, empreender e serem independentes profissionalmente e financeiramente. Segundo o Governo Federal, somente em 2021 foram mais de 4 milhões de novos empreendimentos abertos no Brasil. Por outro lado, até recentemente e diante deste cenário repleto de ameaças e desafios, os indicadores relativos à longevidade destes novos empreendimentos não eram nada satisfatórios. Sempre foram muito altos os índices e estatísticas das empresas que não sobrevivem ao final de seu primeiro ano de vida (chegando a 21%). Se aumentarmos o período para cinco anos de mercado, o número de empresas brasileiras que não sobrevivem chega a 60%. É natural esperarmos e lutarmos por mudanças em políticas públicas que transformem nosso ambiente de negócios em prol do empreendedorismo, liberdade econômica, geração de emprego e renda. Porém, será só isso? Sentar e esperar que o poder público faça a sua parte, enquanto boas ideias, importantes iniciativas e diversas oportunidades de empreendedorismo são desperdiçadas? O que eu observo é que, independentemente da condição do ambiente de negócios, contribuem muito e de forma decisiva para esta “carnificina do empreendedorismo” por aqui, o completo desconhecimento, omissão e desinteresse quanto a avaliação, adequação e implementação de práticas de governança e gestão, extremamente disseminadas em mercados muito menos hostis do que o brasileiro. Práticas estas, que têm exatamente o objetivo de planejar, preparar, prever, definir e ajustar a direção e o controle de um empreendimento nos rumos de sua sustentabilidade, e ao longo de toda sua trajetória. No Brasil, infelizmente tais conceitos e práticas são muito ainda relegadas para um segundo plano, como se não fossem aplicáveis ou importantes em nosso ambiente: “Não tenho tamanho para isso”; “Não temos recursos para investir nisso”; “Temos que focar no business”. Quem já não escutou estas frases ou outras semelhantes alguma vez na vida para justificar o porquê de não investir em planejamento, gestão e governança? Neste ponto, encontra-se nossa contradição: ainda que o Brasil seja um dos países onde as incertezas e ameaças são mais numerosas, e de maiores impactos negativos comprovados dentre diversas outras nações do planeta, aqui também seguimos, majoritariamente, cultuando e reproduzindo os mesmos padrões de conduta empreendedora que têm nos guiado a estes resultados narrados. Em minha opinião, está mais do que na hora da sociedade atuar proativamente em torno de seus interesses e objetivos, alheios ao poder público, e neste quesito, o empreendedor tem função fundamental nesta transformação. O papel do empreendedor e executivo neste processo de transformação Ao compreender, atuar, liderar e engajar em torno de boas práticas de governança, planejamento e gestão, melhor será sua condição de se preparar para a “floresta selvagem” que irá enfrentar (ou já esteja enfrentando). E todo este esforço surge tão logo a decisão de empreender é tomada: Avaliação de Riscos; Planejamento Estratégico; Definição de Propósitos, Valores, Missão e Visão; Definição de Políticas; Mapeamento e Delineamento de Processos etc. Quanto mais conhecimento e clareza do que se deseja e se pode atingir; quanto mais avaliação, análise, planejamento e simulação de como atingir o que se deseja, considerando os desafios, barreiras e ameaças que serão enfrentadas até lá; maiores as chances de sucesso e/ou menores as chances de fracasso. Ninguém entra em uma guerra sem conhecer os seus objetivos, o campo de batalha e seus inimigos, ou estou errado? Normalmente, nas PMEs é onde mais encontramos resistências a estes conceitos e práticas. Neste mercado, são ainda raros os empresários, empreendedores e gestores que atuam com essa ótica, com essa cultura de utilizar de uma forma muito efetiva, muito proativa, as ferramentas disponíveis no mercado. A maioria segue expondo suas organizações às “marés do mercado”, a busca permanente pela “grande sacada” que tornará o seu empreendimento com grande “gordura”, inclusive mascarando ineficiência e erros futuros. O fato é que este cenário em que eventualmente encontra-se uma “grande oportunidade” para empreender e “resolver a vida” está cada vez mais raro. A integração dos mercados globais, o desenvolvimento tecnológico e o fluxo sem fronteiras e sem barreiras para comunicação, tornou as ideias e as informações disponíveis a todos e o tempo todo. Uma grande ideia de ontem pensada por A, hoje já está sendo aprimorada por B. Neste ponto, muitos devem estar se perguntando: e como então é possível atingir o sucesso neste cenário? A resposta está na eficiência e na efetividade de como os empreendimentos são pensados, criados e geridos no tempo. Grandes ideias não sobrevivem mais por si só, sem uma boa governança e gestão conduzindo sua implementação. Enquanto isso, ideias não necessariamente revolucionárias, são capazes de prosperar a partir da efetividade e da disciplina na aplicação destas ferramentas. Sob a justificativa de que não há recursos ou tamanho para que sua organização absorva estes conceitos e práticas, ou ainda, diante até mesmo da ausência de informação quanto a existência destas ferramentas, o pequeno e médio empresário segue, monocraticamente e muitas vezes em solidão, gerindo, direcionando e controlando sua organização com base em seu próprio instinto, e sua própria capacidade e perfil (ou não) para atuar nestas matérias. A combinação de um ambiente naturalmente hostil, e a falta de cultura e percepção da necessidade de utilização de ferramentas de gestão e governança,…

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O maior pecado da implantação e certificação de sistemas de gestão no Brasil

Se você acompanha meu conteúdo com frequência por aqui, sabe o quanto falo sobre pensamentos e estratégias errôneas que a maioria das organizações têm acerca dos aspectos de implementação e certificação de sistemas de gestão. Entre tudo o que já vi e continuo presenciando, existe uma falha que considero ser o maior pecado da implantação e certificação no Brasil, e é sobre isso que abordarei hoje. Em meio ao processo de implementação e consequente certificação de seus modelos de gestão, as organizações acabam investindo uma quantidade considerável de recursos financeiros, humanos, de tempo e energia, para implementar todo o processo. Condição esperada quando falamos de processos e estrutura que adequam as principais atividades da organização e sua cultura em torno de requisitos normativos padronizados. Porém, como tenho destacado em artigos anteriores, a excessiva “commoditização” destes modelos de gestão, e a igualmente crescente canibalização dos seus referenciais de avaliação e certificação, culminando com fracos resultados de desempenho, produtividade e competitividade no mercado, são elementos de um ecossistema comprometido por um fator predominante: a quase completa ausência de sinergia e conexão de implementação (e certificação) entre os modelos de gestão implementados, e o core business da organização, seus objetivos estratégicos e seus riscos específicos. Siga me perfil no Instagram O que isso representa no dia a dia do mercado? Diante desta condição, a conhecida relação oferta versus demanda, tão conhecida na economia, torna-se uma realidade também por aqui, porém tendo como principal ativo o conhecimento e qualificação profissional. Na medida em que os processos de implementação de modelos de gestão canibalizam-se a si mesmos, tendo como principal objetivo a sua certificação, e não os resultados e aumento de valor que a organização espera obter deste investimento (e a certificação tornar-se-ia apenas uma consequência natural deste trabalho), o nível de qualificação e competência dos profissionais que atuam nestas áreas passa a ser compatível a esta canibalização. Não menos valorizado torna-se também o trabalho, competência e a qualificação dos organismos (e de seus profissionais) que atuam no processo de avaliação e certificação destas mesmas organizações. Em complemento a esta ampla deterioração de um ecossistema que propunha-se ser de busca pela “excelência”, esta baixa valorização do trabalho de avaliação e certificação, impacta também nas próprias etapas e demandas que cercam esse processo: amostragens cada vez menores de evidências, avaliações superficiais de requisitos, e desconhecimento dos avaliadores quanto às características e objetivos da organização avaliada. Voltando a origem deste ciclo, e como já mencionado, o processo de implementação de modelos de gestão em meio a este ecossistema em franca vulgarização, torna cada vez mais distante a expectativa de expansão de resultados e de ganho de valor para a organização e todas as suas partes interessadas. Em resumo, com foco único e final na certificação (e no caminho que leva a mesma, com o menor esforço e maior agilidade possível), a organização literalmente desperdiça recursos na construção de um “castelo de areia”. Atuando em adaptações e redesenhos de processos internos, com foco exclusivo nos requisitos a serem atendidos para obter a certificação (e não em seus objetivos e riscos), a organização muitas vezes submete “peças quadradas” de sua gestão ao seu encaixe em “formas elípticas”, incluindo todas as “escoriações nas peças”, decorrentes desta prática. Não vai funcionar. É possível implementar um modelo de gestão de forma rápida, apenas para mostrar ao auditor que foi implementado, objetivando a certificação? Toda a canibalização demonstrada e os resultados que o mercado brasileiro vem colhendo a despeito de seu alto volume de certificações de modelos de gestão, quando comparados a outros países, indicam claramente que sim! Por outro lado, o que toda essa condição demonstra? A despeito do foco no menor esforço e na agilidade da obtenção da certificação, todo e qualquer processo como esse envolve, necessariamente, doses relevantes de investimentos, energia e desgastes. Então, por que não fazer da maneira produtiva e com foco nesses ganhos de resultado e valor? Nesse ponto, temos o que considero ser o maior pecado deste mercado: a perda contínua e crescente de oportunidades de transformação positiva das nossas organizações, que levariam a ganhos de produtividade, confiabilidade e competitividade, além de mudanças positivas na cultura organizacional. Perdas essas que ocorrem, mesmo diante dos investimentos que já estão sendo realizados em torno de modelos que se propõe a indicar os caminhos para estes ganhos. A “elevação da barra” de qualificação, competência, expectativas e resultados, a partir das boas práticas de gestão no mercado, provocaria uma grande onda de transformação positiva em toda a cadeia produtiva, culminando com o seu crescimento econômico e de sustentabilidade. No vídeo abaixo, o Gerente de Conformidade e Governança da BRA Certificadora (Arthur Dorigo) traz estatísticas importantes, e que demonstram os efeitos reais em torno da implementação de práticas de gestão (no caso gestão anticorrupção ou antissuborno), sem adequado esforço ou dedicação na transformação genuína da cultura organizacional.

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A vulgarização das certificações profissionais

Ainda que seja difícil reconhecer, por se tratar de um segmento no qual atuo, a realidade que temos hoje é de um país que sofre com a disseminação da baixa qualificação de profissionais na área de gestão e governança, diante da grande quantidade de oferta de cursos com baixo ou nenhum referencial efetivo. Diante dos desafios que se impõe, dia após dia, no nosso mercado e junto às empresas, boas práticas de gestão e de governança tornaram-se a base para o crescimento e a sustentabilidade de toda organização. Condição que justifica a busca frequente e cada vez maior por esse conhecimento. Porém, como é possível perceber em nosso mercado, uma grande procura e oferta não necessariamente significa grande qualidade e valor agregado. Este aumento exponencial da oferta de qualificação de profissionais nesta área (o que me parece ser também um fato para outras áreas), vem sendo construída a partir de uma grande mistura de palavras-chave, além do escalonamento sem critério da oferta e do reconhecimento. Nesta linha, temos desde workshops de duas horas que levam também a certificação, cursos que afirmam certificar, pois emitem um “certificado de participação” ao seu final, e certificações que incluem algumas dezenas de horas de formação e uma avaliação final, mas que possuem em seu rol de certificados, desde profissionais recém atuantes na área, como também outros de grande experiência e qualificação. Em meio ao uso desenfreado e pouco criterioso do termo “certificação”, tornou-se um desafio para quem busca um reconhecimento compatível ao conhecimento, experiência e expectativas de retorno, e para quem busca profissionais alinhados às demandas de suas organizações, identificar com clareza o caminho a seguir. O dilema do crescimento Ao longo da minha vida profissional, e diante de tudo que pude observar no mundo das certificações, ficou muito claro o “terreno sempre pantanoso” das certificações binárias, ou seja, daquelas que você só tem a opção de ter ou não ter. Seja no mercado de certificação de pessoas, como de sistemas ou mesmo de produtos, ao longo do tempo, o modelo binário de certificações fatalmente entrava em conflito e passava a enfrentar dilemas constantes com as questões comerciais e de marketing de oferta da própria certificação. Seja qual for a certificação, é natural que na medida em que há seu crescimento no mercado (e crescimento indica aumento de certificados emitidos e reconhecimento público do selo), haja também um aumento de demanda em torno da obtenção do referencial. De um lado, o desejo em alcançar o reconhecimento, seja para “entrar no baile” ou mesmo para não ser “convidado a se retirar”. Do outro, um “doce” e quase irresistível convite a qualquer organização que forneça certificações, que passa a ter “a faca e o queijo” para surfar em meio ao crescimento de demanda (e de receita). E no meio deste cenário, aspectos que podem levar ao início do fim do referencial de excelência: Será que todos aqueles que ingressam no processo têm condições de obter a certificação? Como dizer “não” para aqueles que não reúnem as condições mínimas necessárias para ingressar no processo de certificação? Em se tratando de um modelo binário, como oferecer transparência e clareza a todas as partes interessadas, no que tange o nível de êxito que levou a obtenção do selo, diante do crescimento exponencial de certificados emitidos? Porém, o que cerca todas estas questões? Qual o ponto central e crítico que permeia as decisões diante do cenário acima? A resposta a estas perguntas é uma só: O nivelamento por baixo e os seus sinais O “canto da sereia” diante do aumento da demanda (e de receita) no curto prazo para a certificação oferecida, leva a muitos organismos de certificação a sucumbirem, o que afeta diretamente os valores que deram origem ao referencial construído. O “branding” passa a ser o produto, e não o que ele significa, que mensagem ele traz e que valor agrega a todos que têm interesse no referencial. Em se tratando, por exemplo, de certificações binárias de profissionais, este processo é ainda mais acelerado, oferecendo como consequência imediata o nivelamento por baixo, tanto das exigências para obtenção do selo, quanto da entrega percebida dos profissionais certificados junto ao mercado. Neste ponto, misturam-se tanto as “certificações” obtidas em um workshop de duas horas, quanto aquelas que promovem uma certificação ancorada em um processo de qualificação e comprovação de experiências mais estruturadas. A fronteira que delimita os requisitos da certificação começa a ser cada vez mais elástica. Afinal, quanto mais profissionais certificados, maior o reconhecimento, maior o market share e maior o resultado financeiro do produto. Em se tratando de certificação de profissionais, as quais devem (ou deveriam) compor aspectos de qualificação e experiência prévia, além de formação específica direcionada ao processo de certificação, alguns sinais começam a surgir e que demonstram este esforço pela elasticidade em prol da escala: Os critérios de ingresso no processo de certificação tornam-se menos importantes, ou apenas detalhes, diante da inscrição em si; O processo de formação específico não evolui e, em muitas ocasiões, é até canibalizado e enlatado em um formato que facilita a participação de cada vez maior número de inscritos, além de tornar seus temas e discussões mais genéricas e pouco objetivas; O volume de profissionais de diversos níveis e momentos de carreira ostentando a certificação aumenta exponencialmente; A estratégia de comunicação institucional e de marketing do organismo de certificação está mais direcionada ao seu “branding” e o da certificação, do que nos valores, objetivos e resultados que cercam o referencial. Estar atento a estes sinais, é um passo decisivo na busca por clareza e transparência quanto aos caminhos de evolução do referencial desenvolvido. O mercado é quem perde, mas temos saída? Infelizmente se multiplicam no mercado exemplos em que a escala e o branding se sobrepõem ao referencial. O título tornou-se o foco, e não aquilo que ele carrega em termos de valores, entrega e resultados. Cada vez menos temos condições de separar “o joio do trigo”, e todo o mercado perde. Perdem as empresas que ficam sem um…

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PMEs e o preconceito que cerca a gestão de riscos nestas organizações

Ao ter acesso a determinado caminho ou ferramenta de gestão para aplicar em seus negócios, boa parte dos profissionais busca descobrir e identificar o retorno em valor possível proporcionado pelo investimento a ser feito, assim como a probabilidade de que este retorno se materialize de fato. Na gestão de risco não é diferente, porém, em grande parte das pequenas e médias empresas observa-se que esta fase de descoberta das vantagens sequer é atingida, diante de um pré-julgamento comum no mercado, de que gestão de risco efetiva somente é viável e capaz de trazer resultados tangíveis para grandes empresas. Em complemento a este pré-julgamento, existe ainda a ideia de que gestão de riscos tem como foco aspectos ou eventos negativos (fraquezas e ameaças, em especial). Neste ponto: Um plano de gestão de riscos bem elaborado e implementado, consegue atuar em ambas as frentes: de um lado, combatem-se e mitigam-se as fraquezas e ameaças. Do outro, avaliam-se as oportunidades que podem ser aproveitadas, e as forças a serem potencializadas. Com isso, atinge-se o melhor resultado possível, e o planejamento é aproveitado em sua plenitude. Além desta função, a gestão de riscos tem ainda a capacidade e a responsabilidade de projetar um plano de contingência diante das situações mais variadas possíveis, e que colocariam a organização diante de grandes dificuldades e até ameaças à sua continuidade e sobrevivência. É o que comumente chamamos de Plano de Continuidade de Negócios. A gestão de risco aplicada Quando diretores, empreendedores e gestores de clientes me questionam se está na hora de começar a pensar na gestão de risco, diante de um crescimento significativo do negócio, o surgimento de um grande concorrente ou produto substituto, ou mesmo diante de um evento de grande impacto ao negócio, meu pensamento é sempre o mesmo: já deveria ter sido iniciado há tempos. A demora para essa consciência, e a consequente demora para a ação, está intrinsecamente relacionada à cultura de governança e gestão pouco disseminada em nosso mercado. Observo com frequência que a cultura do imediatismo, o excesso de expectativas de retorno no curto prazo, de emoção e até empolgação na condução de novos empreendimentos, ou de negócios já estabelecidos, aliados a grandes talentos, criam uma falsa sensação de autossuficiência para condução de empreendimentos, porém quase sempre de prazo totalmente limitado. Neste cenário, não são incomuns as empresas geridas a partir de forças tarefas frequentes, que se criam para enfrentar crises e grandes desafios em sequência, e que incluem até mesmo a recuperação de projetos que tinham enormes chances de sucesso, mas que por falta de planejamento, previsibilidade e gestão, tornam-se grandes problemas. Reuniões e mais reuniões para definir ações de enfrentamento de questões que se tornaram urgentes, mas que há 6 ou 8 meses eram apenas importantes. E justamente por serem “apenas” importantes, eram sempre relegadas ao fim da fila à época, diante de outras questões urgentes naquele momento, mas que meses antes também eram apenas importantes. Ou seja, forma-se um ciclo contínuo e de grande dispêndio de energia, pautado pela gestão por “forças tarefas” para fazer o que não foi feito em momento oportuno, diante da falta de previsibilidade, planejamento e gestão. Expansão do negócio, aquisição ou fusão com outra empresa, inclusão de novo produto em seu portfólio, novo concorrente ou substituto no mercado, crise de suprimentos, implementação de um sistema de gestão ou um programa de integridade, esses e outros itens estão relacionados diretamente ao cotidiano da empresa, seja ela do segmento que for, e à gestão de riscos. Conhecer os objetivos, mapear e qualificar eventos de risco, e estabelecer um plano de ação contínuo e monitorado, é fundamental para qualquer empresa, independentemente do tamanho e tempo de mercado. Encontrar metodologias e ferramentas de gestão de riscos que sejam viáveis e efetivas, com base nas expectativas e estrutura da organização, além de ter foco no alinhamento deste trabalho aos objetivos estratégicos, é função de um bom profissional da área de riscos. Como já mencionei em artigos anteriores, não há como estacionar um caminhão em uma vaga de moto, muito menos acreditar que um jet ski seja o meio de transporte escolhido para atravessar-se o deserto.

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Por que a inovação não depende somente de inspiração?

Entre os anos de 2015 e 2016, período do auge da Operação Lava-Jato, tive a oportunidade de participar diretamente da construção de um modelo de certificação de gestão diferenciado e dedicado aos programas de integridade, ou sistemas de gestão anticorrupção, implementados em organizações. A minha experiência profissional na implementação e certificação de sistemas de gestão diversos, seguindo o modelo tradicional aplicado às normas ISO, foi determinante para apontar em algumas direções para as quais não desejava caminhar. A progressiva “commoditização” dos selos de certificação ISO, já tratados em artigos anteriores, na minha opinião, seria exatamente aquilo que o mundo empresarial sério, escandalizado com todos os fatos que estavam vindo à tona naquele momento, não precisava para engajar-se na transformação ética do ambiente de negócios. No entanto, seria inevitável que o modelo tradicional de implementação e certificação de sistemas de gestão viesse a avançar sobre este tema e, ao final 2016 e início de 2017, a primeira norma de gestão dedicada ao assunto foi lançada: ISO37001 – Requisitos para Sistemas de Gestão Antissuborno (assim como outras têm surgido nos últimos tempos). Na esteira desta publicação, a corrida para certificação começava, incluindo até mesmo a incrível história de uma empresa nacional que obteve esta certificação antes mesmo da norma ser publicada no Brasil. Pessoalmente, e seguindo o planejamento estratégicoque definimos, tinha confiança de que seria necessário aguardar algum tempo, até que a corrosão atual das certificações de modelos de gestão atingissem também o tema corrupção. Tínhamos que estar preparados para este momento, para conseguirmos apresentar com clareza, como seria possível construir um caminho diferente, mais efetivo e genuíno em termos de construção de valor. A confiança de que este momento chegaria se baseava, e ainda se baseia, em uma premissa muito objetiva: enquanto não discutirmos de forma sincera e objetiva a atual estrutura que rege os processos de certificação de modelos de gestão, ainda que as normas sejam as melhores já criadas, é praticamente impossível avançarmos na construção de valor real para as organizações e para a sociedade, a partir destes referenciais. Até quando seguiremos desperdiçando tempo, energia e recursos na implementação de modelos de gestão, como o que já acontece na área de compliance? Até quando seguiremos enxergando a certificação como um objetivo, e não como uma consequência natural de uma gestão implementada de forma efetiva, estruturada, e alinhada aos interesses e objetivos de todas as partes interessadas da organização? Por que está mais do que na hora olharmos com mais atenção às certificações de programas de integridade? Como já demonstrei estatisticamente antes, ao analisar os atuais resultados produzidos por modelos de gestão certificados nas áreas de qualidade, saúde e segurança ocupacional, e meio ambiente, por exemplo, não é nada difícil constatarmos o progressivo descasamento entre confiança, valor e volume de certificações. Então, qual sentido existe em aplicar este mesmo modelo para as certificações de programas de integridade? Qual valor, segurança e confiança pode existir para um modelo de certificação voltado para a integridade, no qual há a possibilidade de “fatiamento” da certificação, definindo qual o local ou escopo de atuação passaria ou não pela avaliação da entidade certificadora? Imagine uma empresa com 10 unidades espalhadas pelo Brasil tendo apenas três destas unidades com seu programa de integridade certificado. Qual o sentido disso? Agora imagine um outro cenário, no qual apenas um dos escopos de atuação da organização foi submetido ao processo de certificação. Por exemplo, vamos imaginar que a empresa vende e fabrica móveis, incluindo sua constante participação em licitações públicas de fornecimento de mobiliário. Porém, esta organização também atua em assistência técnica de dobradiças de mobiliário. A empresa opta então por certificar seu programa de integridade apenas para os serviços de assistência técnica, deixando de fora a operação de venda. Qual valor esta certificação estaria agregando? Como esta empresa estaria se comunicando com o mercado, diante da obtenção desta certificação? É preciso repensar o modo como estamos lidando com o tema, e o que estamos fazendo em prol da transformação do nosso mercado na direção da cultura da ética e integridade. Não é possível seguirmos produzindo um “mundo de faz de contas” em torno de temas que são absolutamente relevantes e impactantes para produzir a tão necessária transformação de nosso ambiente de negócios. Este artigo foi publicado originalmente no jornal Tribuna da Imprensa Digital

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